Ciclo Natalino é encerrado com manifestações culturais em comemoração ao dia de Reis
Manifestações culturais: Ciclo Natalino encerra em comemoração ao dia de Reis
Em Sergipe, a data celebra a chegada dos três reis magos com manifestações como a Taieira, Cacumbi e Chegança
Presente no calendário litúrgico da Igreja Católica, o Dia de Reis é celebrado no dia 6 de janeiro. Essa data marca a aparição dos reis magos ao local de nascimento de Jesus Cristo com o objetivo de prestar culto e oferecer presentes. E também marca o encerramento do período natalino, sendo a ocasião em que são recolhidas as decorações desse período.
Trazida para o Brasil por colonos portugueses, atualmente é uma das manifestações folclóricas mais significativas em todo o país. Em Sergipe, a data é comemorada com manifestações populares, entre elas a Taieira, Cacumbi e Chegança.
Taieiras
A colaboradora do Memorial de Sergipe e professora de História, Nathaly Silva, comenta sobre a história das manifestações culturais realizadas em Sergipe. “A Taieira é uma manifestação cultural ligada ao ciclo natalino e remete às influências portuguesas e africanas no Brasil. A celebração retrata a devoção a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário e se relaciona com a Festa de Santos Reis Magos, no dia seis de janeiro. Em Sergipe, há registros de sua existência nos municípios de Laranjeiras, Japaratuba, São Cristóvão, Lagarto, Aracaju e Itaporanga, tendo em cada localidade práticas específicas”, explica.
Em suas pesquisas, ela encontrou nos livros “Danças e Folguedos; iniciação ao Folclore Sergipano”, de Aglaé D’Ávila Fontes Alencar, e “Etnomusicologia das Taieiras de Sergipe: uma tradição revista”, de Hugo Leonardo Ribeiro, a explicação de como surgiu a Taieira no estado.
Nathaly destaca que em Laranjeiras, o grupo Taieiras é ligado à Irmandade Nagô, religião de matriz africana, e atualmente é liderado pela Lôxa Bárbara Cristina, responsável pela manutenção da tradição que remete ao século XIX. “Sem restrição de gênero, mas majoritariamente composto por jovens negras e virgens, o enredo é executado por diversos personagens como: Guias, contra – guias, taieiras, lacraias, capacetes, ministro, patrão, rei e rainhas”, destaca.
Ainda de acordo com Nathaly, no dia seis de janeiro, os devotos cantam e dançam pelas ruas do município de Laranjeiras junto aos grupos Cacumbi e Chegança, até o momento da coroação das Taieiras, que acontece na Igreja Nossa Senhora do Rosário.
“A coroação é o ponto mais marcante da celebração, pois o pároco retira a coroa da imagem sacra de Nossa Senhora do Rosário e a coloca na mulher escolhida como Rainha. As suas vestimentas são predominantemente vermelhas e possuem fitas coloridas que enfeitam suas saias. Nas mãos, alguns personagens carregam o querequexé, – instrumento que remete a religiosidade africana – e uma espada”, comenta.
Já em Lagarto, há registros de dois grupos das Taieiras comandados respectivamente por Seu Gerson e Dona Neti. “Segundo histórias populares, os grupos surgiram por influência das Taieiras de Laranjeiras, mas não perpetuaram todos os seus costumes. Assim, o grupo não possui restrições religiosas, e em geral, é composto por idosas. Os personagens principais são o Rei, a rainha, o percussionista e as dançarinas Nas vestimentas, utilizam vestidos brancos com fitas coloridas e chapéus com fitas azuis ou vermelhas”, ressalta.
Esse ano a Missa de Reis e Coroação das Taieiras ocorrerá no domingo, 7 de janeiro, na Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, em Laranjeiras.
Cacumbi
O Cacumbi é uma manifestação cultural centenária que se relaciona ao ciclo natalino. Conforme aponta o pesquisador Irineu Fontes (2014), não há um registro exato sobre a sua origem, mas há uma ligação direta entre a manifestação e a presença africana no país. “Assim como a Taieira e a Chegança, o Cacumbi é uma celebração a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário, protetores das comunidades negras em diferentes contextos nacionais. É possível encontrar grupos nos municípios de Laranjeiras, Japaratuba, Maruim, Lagarto, Itaporanga e Riachuelo”, conta Nathaly.
Em Sergipe, o folguedo é composto apenas por homens que se dividem entre dançadores, mestre e contra- mestre, sendo a indumentária, o que diferencia a função de cada um no grupo: os integrantes vestem camisa amarela e o Mestre e contra- mestre se destacam utilizando camisa azul. O chapéu com fitas coloridas e pequenos espelhos trazem o movimento e a alegria à celebração.
“Os brincantes utilizam instrumentos como onça, pandeiro, reco-reco, caixa e ganzá. Assim,dançam e cantam formando duas fileiras que se movimentam ao longo da apresentação. Ao centro, mestre e contra – mestre coordenam o ritmo, sendo o primeiro responsável por entoar as cantigas, e o segundo por responder e auxiliar os brincantes. Os cânticos, por sua vez, possuem caráter religioso e popular. Jovens e idosos participam do folguedo, evidenciando assim, o seu caráter geracional”, detalha.
No município de Laranjeiras, o Cacumbi preserva a história dos diferentes mestres que contribuíram com a continuidade da louvação aos santos protetores, destaca-se: João de Pita, Otacílio, José de Rosa da Silva (Zezinho), José Santana dos Santos (Deca), José Carlos dos Santos (Testinha) e Antônio Carlos dos Santos (Neguinho).
“Atualmente, o Cacumbi de Laranjeiras tem um calendário festivo para a realização da louvação: A festa dos Santos Reis, a festa do Bom Jesus dos Navegantes, a Semana do Folclore e o Encontro Cultural de Laranjeiras. Além disso, em novembro de 2013, através de uma Lei Municipal, o dia 13 de julho foi estabelecido como Dia Municipal da Dança do Cacumbi”, frisa.
Chegança
Compondo a Festa de Reis, a Chegança é um folguedo popular que encena a reconquista dos cristãos de territórios dominados pelos muçulmanos a partir do século XVIII. Em louvação à São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, a encenação remonta as batalhas entre cristãos e mouros até a derrota destes, que são batizados como forma de rendição.
“A indumentária utilizada pelos que representam os cristãos faz referência a patentes da Marinha, ressaltando as jornadas marítimas enfrentadas pelos povos ibéricos no processo de retomada. Já os Mouros, são representados com roupas bem coloridas, coroas e turbantes, remetendo assim, aos principais reinos muçulmanos do período. Os cristãos tocam pandeiros que são harmonizados pelo Capitão-piloto da tripulação, que por sua vez, carrega uma buzina. Nos momentos de encenação, os personagens utilizam espadas para simbolizar as batalhas”, descreve.
Ao longo da louvação, que sempre ocorre próximo a igrejas, são entoados cânticos e encenadas batalhas entre os personagens citados. As cantigas cantadas na rua e dentro da Igreja possuem diferenças tanto nas letras, como em seu ritmo.
“O pesquisador Mesalas Ferreira Santos, destaca que a Chegança Almirante de Tamandaré, comandada pelo Mestre Zé Rolinha, se deu como um pagamento de promessas e tem como data marcante a coroação das Taieiras, durante a Festa dos Santos Reis, que junto aos Cacumbis, formam a tríade celebrativa aos santos protetores dos pretos”, conta.
No município de Itabaiana, a Chegança Santa Cruz é registrado como o grupo mais antigo de Sergipe. “O seu destaque se deve pela tradição familiar que atravessa as gerações há mais de sete décadas, quando foi fundado por José Serafim de Menezes, popularmente conhecido como Zé Biné, que fez sua passagem em 2020, deixando um legado de resistência e luta pela preservação da cultura popular”, relembra.
A historiadora ressalta que é possível encontrar essas manifestações culturais na programação da celebração do Dia de Reis em algumas cidades sergipanas. “Ainda há poucos estudos sobre esses grupos, por isso o foco das pesquisas acaba sendo sobre Laranjeiras, que é considerado o berço cultural de Sergipe. Mas existem programações culturais da Teixeira, Cacumbi e Chegança em Lagarto, São Cristóvão, Divina Pastora e Itabaiana”, finaliza.
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